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id da página: 3428 Platão Filosofia Refratária Platão

Platão Filosofia Refratária

Platão — Carta VII (excertos)

A filosofia é refratária a toda formatação em forma de tratado escrito


Há pelo menos uma coisa que posso dizer a respeito daqueles que escreveram ou que escreverão e pretendem ter competência nas matérias das quais me ocupo, quer pretendam ter sido instruídos por mim ou por outro, ou a tenham descoberto sozinhos: é que é impossível, pelo menos na minha opinião, que entendam o que quer que seja. A este respeito, em todo caso, não existe nenhum Tratado que seja de minha autoria e não haverá jamais, pois diferentemente dos outros saberes, este é um que não se deixa pôr em fórmulas; nasce daquilo que mantemos um comercio assíduo com aquilo que é a matéria mesma, daquilo que se partilha na vida, e surge na alma, tal a chama que sai da centelha, pois cresce espontaneamente. O que sei igualmente é que sou eu que seria o melhor a expor por escrito ou oralmente e sou eu que sofreria a maior imperfeição do Tratado. Se tivesse entendido que ele pudesse ser escrito e formulado como se deve para o público, que poderia ter realizado de mais belo na minha vida que publicar algo de tão precioso para todos e de revelar a verdadeira natureza das coisas? Mas não penso que tal empresa seja um bem para a humanidade, a exceção de raros indivíduos onde simples indicações são suficientes para pô-los a descobrir por seus próprios meios. Só se faria encher os outros de um desdenhar inconveniente sem fundamento ou de uma pretensão tão altiva quanto vã. (...)

Há uma verdadeira razão que se opõe àquilo que se ousa escrever do que quer que seja desta matéria, razão que frequentemente já aleguei; mas que creio dever repetir novamente. (...)

Todos os modos de conhecimento se oferecem para exprimir a qualidade assim como o ser de cada coisa por meio do instrumento falho que é a linguagem. Eis porque nenhum homem sensato não tomará o risco de lhe confiar seus pensamentos, sobretudo sob a forma cristalizada dos caracteres escritos. (...) Tal é a razão precisa pela qual todo homem sério, ocupado de coisas sérias, se guardará bem, escrevendo, de deixar vazar tais assuntos no domínio público e de expô-los assim à malevolência e às dúvidas. Além do mais, deve-se, em resumo, quando se vê obras escritas em forma de leis por um legislador, ou por quem quer que seja sobre outro assunto, de fato se dar conta daquilo que as caracteriza: para ele, pelo menos se é sério, não é aquilo que é sério, mas sim o que se assenta em algum lugar do que lhe pertence de mais belo. No caso, onde, ao contrário, é aquilo que ele olha como sério que assim depôs nos caracteres da escritura, então deve-se dizer dele: "ele teve um espírito devassado" não “pelos deuses”, mas pelos mortais. (Carta VII, 341c-344cd)